terça-feira, 22 de novembro de 2011

Húmido de beijos e de lágrimas

- arquivo pessoal - Karoliny Santér



húmido de beijos e de lágrimas,
ardor da terra com sabor a mar,
o teu corpo perdia-se no meu.

(Vontade de ser barco ou de cantar.)



- Eugénio de Andrade -


quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos


- arquivo pessoal - Karoliny Santér



Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da poesia...
como uma pobre lanterna que incendiou!


- Mario Quintana -

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Tu eras também uma pequena folha



Tu eras também uma pequena folha

que tremia no meu peito.

O vento da vida pôs-te ali.

A princípio não te vi: não soube

que ias comigo,

até que as tuas raízes

atravessaram o meu peito,

se uniram aos fios do meu sangue,

falaram pela minha boca,

floresceram comigo.


- Pablo Neruda -

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Muitas vozes


- arquivo pessoal - Karoliny Santér




Meu poema
é um tumulto:
a fala
que nele fala
outras vozes
arrasta em alarido.

(estamos todos nós
cheios de vozes
que o mais das vezes
mal cabem em nossa voz:

se dizes pêra,
acende-se um clarão
um rastilho
de tardes e açúcares
ou
se azul disseres,
pode ser que se agite
o Egeu
em tuas glândulas)

A água que ouviste
num soneto de Rilke
os ínfimos
rumores no capim
o sabor
do hortelã
(essa alegria)
a boca fria
da moça
o maruim
na poça
a hemorragia
da manhã

tudo isso em ti
se deposita
e cala.
Até que de repente
um susto
ou uma ventania
(que o poema dispara)
chama
esses fósseis à fala.

Meu poema
é um tumulto, um alarido:
basta apurar o ouvido.


-Ferreira Gullar-


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Lo que necesito de ti

- arquivo pessoal - Karoliny Santér



No sabes como necesito tu voz;
necesito tus miradas
aquellas palabras que siempre me llenaban,
necesito tu paz interior;
necesito la luz de tus labios
!!! Ya no puedo... seguir así !!!
...Ya... No puedo
mi mente no quiere piensar
no puede piensar nada más que en ti.
Necesito la flor de tus manos
aquella paciencia de todos tus actos
con aquella justicia que me inspiras
para lo que siempre fue mi espina
mi fuente de vida se ha secado
con la fuerza del olvido...
me estoy quemando;
aquello que necesito ya lo he encontrado
pero aun !!!Te sigo extrañando!!!



- Mario Benedetti-

domingo, 15 de maio de 2011

Soneto da separação

(In memoriam)


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.



De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.



Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.


Vinicius de Moraes


terça-feira, 22 de março de 2011

Trecho...


"Então me vens e me chega e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque assim que és..."


Caio Fernando Abreu

quinta-feira, 10 de março de 2011

Desejos...



... a gente espera até cansar, até a última janela se fechar, eu prometo. Porque de alguma forma a gente sabia que desistir não era nobre, tinha escrito no livro que tava em cima da cama. Uma já nem sabia ver as horas, não sabia mais do vento, nem do cheiro da chuva quando cai sem avisar: terra molhada. A outra só sabia que o tempo corria num tic-tac sem fim. Não tinham mais histórias, não tinham mais medos, nem segredos que pudessem guardar na caixinha fechada com os sete cadeados.
A pulseira laranja estendida no pulso há meses e meses arrebentou. E agora, onde posso ir para ver os desejos se realizarem?

-Camila-

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Infinito




Friso teu olhar, nos mares da alma.
Teu sorriso é meu, só meu...
Nos desertos dos pensamentos.
Alegria que acalma.

Buscar-te-ei nos importunos desejos do vento.
Repousando-te doce, leve, sem medo.
E trazer-te em meu leito de amor.
Sem lembrança, sem segredo.

Nos beijos do destino,
Encontro-me em pensamento.
Voa amor meu... Voe para meu coração.
Voe lento.

Nas margens sem miragem,
Meu desejo não se cala.
Resta-me teu beijo a me esperar...
E minha espera? Ah! Nem se fala...

Quero-te em meu destino...
Amor bonito.
Amor infinito.


- Fábio Aiolfi -


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Desmantelo Azul




Então pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas
depois vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir de nós o azul ausente
e aprisionar o azul nas coisas gratas
Enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas

E afogados em nós nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço

E perdidos no azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul: azul.


- Carlos Pena Filho -


sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Silêncio...

- arquivo pessoal - Karoliny Santér



O silêncio é a linguagem do pensar.
Onde falo tanto,
quando escolho o nada p’ra falar.


- Mailson Furtado -



domingo, 23 de janeiro de 2011

Fragmento



"... Amando noites afora
fazendo a cama sobre os jornais
um pouco jogados fora
um pouco sábios demais
esparramados no mundo
molhamos o mundo com delícias
as nossas peles retintas
de notícias..."


Amando sobre os jornais - Chico Buarque -

sábado, 8 de janeiro de 2011

Soneto da fidelidade





De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.



Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.



E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama



Eu possa (me) dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

.

Vinicius de Moraes

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O amor...



O amor, assim como a vida, só é ruim por ser finito, quando acaba um, acaba o outro.

- Jefhcardoso -



quinta-feira, 22 de julho de 2010

O Juramento

- arquivo pessoal -

Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:

Amo
firme
fiel
e verdadeiramente.



- Maiakovski -