segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Muitas vozes


- arquivo pessoal - Karoliny Santér




Meu poema
é um tumulto:
a fala
que nele fala
outras vozes
arrasta em alarido.

(estamos todos nós
cheios de vozes
que o mais das vezes
mal cabem em nossa voz:

se dizes pêra,
acende-se um clarão
um rastilho
de tardes e açúcares
ou
se azul disseres,
pode ser que se agite
o Egeu
em tuas glândulas)

A água que ouviste
num soneto de Rilke
os ínfimos
rumores no capim
o sabor
do hortelã
(essa alegria)
a boca fria
da moça
o maruim
na poça
a hemorragia
da manhã

tudo isso em ti
se deposita
e cala.
Até que de repente
um susto
ou uma ventania
(que o poema dispara)
chama
esses fósseis à fala.

Meu poema
é um tumulto, um alarido:
basta apurar o ouvido.


-Ferreira Gullar-


Um comentário:

Bruno Gaspari disse...

A poesia de Ferreira Gullar rima com seu sobrenome rs: é singular.

Irretocável seleção de postagens.
Parabéns!

Abraço

BG