
A Vera e Henrique Antoun
Porto Alegre, 23 de dezembro [de 1971].
Porto Alegre, 23 de dezembro [de 1971].
Vera e Henrique,meus queridos: imaginem um mundo de coisas limpas e bonitas,onde a gente não seja obrigado a fugir,fingir ou mentir, onde a gente não tenha medo nem se sinta confuso(não haverá a palavra nem a coisa confusão, porque tudo será nítido e claro), onde as pessoas não se machuquem umas às outras, onde o que a gente é apareça nos olhos, na expressão do rosto, em todos os movimentos- acrescentem a esse mundo os detalhes que vocês quiserem(eu me satisfaço com um rio,macieiras carregadas, alguns plátanos e uma colina- ou coxilha, como se diz aqui no Sul- no horizonte), depois convidem pessoas azuis para se darem as mãos e fazerem uma grande concentração para concretizar esse mundo- e, então,quando ele estiver pronto, novo e reluzante como se estivesse sido envernizado, então nós nos encontraremos lá e eu não precisarei explicar nada, nem contar nenhuma estória escura,porque estórias claras estarão acontecendo à nossa volta e nós estaremos sendo aquilo que somos, sem nenhuma dureza, e o que fomos ficou dependurado em algum armário embutido,junto com sapatos(quem precisará deles para pisar na grama limpa dessa terra?), roupas e enfeites(quem precisará de panos, contas ou cores na terra onde o ar será colorido e enfeitará nossos corpos?)- lá, eu digo,nós nos encontraremos entre centauros, sereias, unicórnios e duendes, e sem dizer nada, com um olhar verde(uma das minhas grandes frustrações sempre foi não ter olho verde-mas lá eu terei) eu direi o quanto gosto de vocês, e voaremos de tanta boniteza- combinado?
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A Luciano Alabarse
Berlim, 01.07.93 (cartão)
Berlim, 01.07.93 (cartão)
Luciano, meu querido:
sozinho no hotel, quase uma da manhã, no verão alemão, ouço Adriana C.no walkman e me dá uma saudade irracional de você.
Que foi tão bom para mim nos dois meses de uma POA péssima.Nenhum calor.Perdi POA, perdi SP, talvez tenha perdido também o Brasil, me chamam para a Hungria e Indonésia, arrumo/desarrumo malas por hotéis estranhos,choro em Veneza, beijo turcos em Milão, acho graça em clichês, rio com Rubem Fonseca,falo duas palavras em inglês, uma alemã, outra italiana, três francesas, outras cinco portuguesas, e não tenho mais uma vida ¨normal¨.Malas, hotéis. E os amigos, cadê? Você foi lindo comigo. E distante. Me deu apoio,não o ombro. Queria tanto ter chorado a dor enorme de POA e a velhice dos meus pais no Menino Deus no ombro de um amigo. Não temos tempo: somos maduros.
Onde será que isso começa?
Procuro o fio, há só a meada.Te abraço quente e longe. Quais eram nossas esperanças?
Recomendações a Luiz Fischer (lindo), please, e fique com Deus.
Te beijo, irmão.
Caio F.
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A Adriana Calcanhoto
Berlim 01.07.93 (cartão)
Berlim 01.07.93 (cartão)
Adriana C.
Minha sempre deusa, continuo andando pelo mundo, chorando ao telefone, prestando muita atenção, divertindo gente, a fome dos meninos da Yogoslávia nas ruas ricas da West-Berlim dói tanto ou mais quanto os nigrinhos do Rio, há dez meses acordo e não tenho ninguém do lado - os meus amigos, cadê? - Vou/irei à Tchecoslováquia, talvez Hungria, Jakarta, mas perdi alguma coisa no Brasil, ¨à tarde Maria dorme¨, tenho medo, matam turcos e a estrada é enorme, mas tua voz e tua música me aconchegam entre Paris/Amesterdam/Berlim/Praga/London/ tudo é muito igual e belos os alemãezinhos ao sol do verão fugaz deles.
Te mando retalhos de amor.
Caio F.
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A Maria Adelaide Amaral
POrto Alegre, 26 de agosto de 1983
POrto Alegre, 26 de agosto de 1983
Levinha, querida,
depois de 10 anos de proibição pela censura,saiu,vai aí o programa.Sou suspeito,claro,mas acho lindo.Tem tido casa cheia toda noite,crítica boa,aplausos em pé,aquelas coisas.Ando comovido e feliz.Vim pra estréia,aí recebi tanto carinho que fui ficando até hoje.Só volto pro Rio dia 5.
Aproveito e mando,no fim da carta,o endereço de lá.Tá tudo indo bem.Minha cabeça melhorou demais com a saída de Sampa.Estou mergulhado na revisão das últimas provas do livro novo,o O Triângulo das águas, três novelas que chamo de "noturnos", a sair em outubro pela Nova Fronteira.Tem várias homenagens,uma delas a você...Reticências de suspense!
Escrevo meio na corrida,pra aproveitar um embalinho de saudade forte.Outra noite em Gramado,falei horas sobre você.Mê de notícias,pro Rio ou pra cá(o fone daqui é 0512-33-4197).Dá um beijo em Murilo e um abraço nos guris.Diga,por favor,a Bel que penso nela com freqüência e mando nice vibes.Que você esteja feliz,em paz,produzindo.
Todo o carinho do seu velho
Caio F.
(o primo intelectualizado de Christiane)
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A Bruna Lombardi
Sampa, 16 de fevereiro de 1981.
Sampa, 16 de fevereiro de 1981.
Bruna,
amei seu livro (Gaia).Estive doente, há umas duas semanas (um vírus misterioso, pestes soltas no ar, na água desta cidade infernal),e aproveitei para ler uma porção de coisas guardadas há tempo. Acho corajoso, bonito, forte. Principalmente quando você solta o emocional. Várias vezes,me comovi, li em voz alta para os amigos, para mim mesmo. Gostava, e muito, do primeiro, mas acho que você cresceu ainda mais. E na direção certa.
Queria dizer isso a você. Por favor não se abale com as maldades tipo Lèo Gilson(crítico literário).Não deixe que esse tipo de comentário, mesquinho e destrutivo, bloqueie a sua criatividade. Está tudo muito ruim,e nós precisamos mais do que nunca ser solidários uns com os outros. Trocar estímulos.
Assim: olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar também.Tá me entendendo? Eu sei que sim.Qualquer coisa, conte comigo. Sem conhecê-la profundamente - mas mais pelo que você escreve e menos pela sua imagem pública - te quero muito bem. Estou com você e não abro.
Receba um beijo grande.
Seu amigo
Caio Fernando Abreu
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A Lucienne Samôr
POA 29.09.94[cartão]
POA 29.09.94[cartão]
Lucienne,querida:Tenho chamado muito Rafael,para que verta o conteúdo de sua ânfora dourada em meu sangue,para purificá-lo.E nael,meu amigo particular,me protege sempre.A tal ponto que consegui transmutar o HIV numa coisa boa dentro de mim.Depois de quase morrer ando feliz agora.A emoção,estranhamente,parece "curada".Falo sempre de você(e me pergunto,e os livros?),mas nos últimos anos a vida me levou para lugares inimagináveis.Viajo dia 4 para a Europa mas,no final de novembro,estou de volta.Não vamos nos perder.
Muito amor, seuCaio F.
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A Déa Martins
[Noruega] 31.05.94 [cartão]
[Noruega] 31.05.94 [cartão]
Déa querida:
Tô no sul da Noruega,depois de rodar bolsinha por Portugal,Espanha e Suécia.Voltei a Stockholm depois de 21 anos, foi emocionante.Te escrevo na sala de uma casa no meio de um jardim.De frente para um fjord.Ouvindo Callas e fumando horrores enquanto Augusto cuida de Evelyn,a gata castrada hoje,um escravinho norueguês loiríssimo corta a grama lá fora.Toda Laika tem seu dia de Stéphanie de Mônaco,baby.A vida me parece bela e mágica,mas morro de saudade de você: escolhi esse cartão a dedo.Chego em SP(medo!)dia 8.Quero te encontrar bela e tirana.
BeijoCaio F.
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A José Marcio Penido
Capítulo - Começo: o escritor(Trecho)
Capítulo - Começo: o escritor(Trecho)
Gay Port (!), 21.6.79
Meu caro Garcia de Oliveira,sim, porque pra um nome como esse só mesmo usando expressões tipo essa, ou ¨prezado¨, ou ¨mui estimado¨. Posto isso, imagino que você esteja surpreso. Esperava receber um cartão cheio de palmeiras e casarios coloniais? Ledo engano: vai esta folha branca, um pouco amolecida pelo frio e pela umidade reinantes aqui por estes pampas, chê
.(...)E não sei o que dizer, Zézinho,não tô bem. Isso é uma coisa que eu posso dizer, tendo certeza dela. Mas é também uma coisa pela qual você não pode fazer nada, e de pouco adianta eu dizer.
Ô, Zé, ando tão desorientado, já faz tempo. E me escondo, e não procuro ninguém, e fico mastigando a minha desorientação. Esse sobe-desce todo da semana passada me deu a medida de como ando. De repente, lá em cima, no Recife, parecia que ninguém no mundo se importava comigo. Eu queria ir pra um lugar onde eu tivesse uma sensaçãozinha, ilusória que fosse, de que tinha alguém prestando atenção em mim. Achei que era aqui. É? Não sei. Me enfiei em casa e não saí. Um desgosto.
Leio o tempo todo. Sento no jardim. Ouço música. Tento escrever,mas não sei se quero ou se preciso, e não consigo. Umas carências. Descobri John dos Passos, mas não é suficiente pra encher esse oco que não sei do que é. Mas tomo copos de leite, durmo bastante, e repito sempre que, seja o que for, vou sair desta pelo menos mais sadiozinho. Deve ter algum processo em andamento dentro de mim, querendo explodir de alguma forma. Ou esse desgosto é já um jeito de ser? Se for assim, não quero acostumar. Se quatro anos de análise não deram jeito nele, quem dá?
Tantos trancos. E o meu olho nem conseguindo ver mais nada bonito.Queixas, queixas. Sorry. Nada de grave. Sábado estréia minha peça infantil aqui. Acho que tô contente. Não vi ninguém, fiquei com medo, da outra vez me abalou tanto um garoto que agora eu não quero nem ver, você me entende?
Tô exasto de construir e demolir fantasias. Não quero me encantar com ninguém. Meu olho vai ficando duro, vai ficando frio. As frases dão uma volta, e caem na queixa outra vez.
Reli teu Vigas neon: sabe que ele me explica um pouco o meu fascínio por Sampa? E doda vez que releio, me dá um medo de acabar crucificado dentro de uma garrafa. Será que é isso que a cidade faz com a gente? Uma cois que eu acho que conta quando a gente se compreende é o fato de você ter nascido em Cambuquira e eu em Santiago do Boqueirão.
Zézim, vezenquando me dá um ódio de São Paulo e da grande cidade, e depois uma cidade pequenininha me dá uma coisa n´alma, sabe como? Uma sensação de estar longe demais de tudo. Vezenquando eu penso que da cidade pequena pra cidade grande alguma coisa se perdeu dentro da gente - me sinto como uma coluna vertebral sem uma vértebra, portanto insustentável. Daí vou pensando um pouco mais nisso e então me dói mais fundo, porque me parece irremediável, inconsertável, insubstituível esse elo, essa vértebra perdida.
Em Recife eu caminhava pensando: que que eu tô procurando aqui, meu deus? Aqui, caminho pensando: que que eu vim fazer aqui, meu deus? Não é uma questão de paisagem exterior, portanto?
(...)
E se a saudade bater, escreva uma carta que pode ser cheia de queixas, ou cheia de Sol.Será bem vinda.Te gosto sempre.
Um beijo Caio
PS - (Adoro PSs: às vezes o PS é tudo numa carta).Com dizia Clarice Lispector arrematando A Hora da Estrela e a sua própria vida: ¨Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. Sim.¨
PS2 - Seja como for, torno a descobrir que a literatura, essa deusa-cadela, é a coisa que mais tenho amado na vida.
PS3 - Se Deus quiser, tudo, tudo,tudo vai dar pé. Outro beijo
*
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A Maria Lídia Magliani
Capítulo : Todas as horas do fim(Ìntegra)
São Paulo, 16.08.94.
¨Magli querida:Pois é, amiga. Aconteceu - estou com AIDS - ou pelo menos sou HIV+ (o que parece + chique...), te escrevo de minha suíte no hospital Emílio Ribas, onde estou internado há uma semana...¨
(nota do editor: Alguns dias depois, em 21/08/94, Caio comunicou a má notícia a seu público leitor na coluna quinzenal que mantinha no jornal O Estado de São Paulo. A crônica intitulava-se ¨Carta para além dos muros¨ e encontra-se publicada na pág.96 do livro Pequenas Epifanias, lançado em 1996 pela Ed.Sulina, organizado pelo amigo e secretário de Caio, Gil França Veloso. No livro, a crônica integra um tríptico: há uma primeira e uma segunda carta para além dos muros e há, ainda, uma terceira, ¨Mais uma carta para além dos muros¨, publicada em jornal no dia 24/12/95 - uma crônica antológica, sobre a cara da morte.)
¨Ah, Magli, que aventura. Voltei da Europa já mal - febres, suadores, perda de peso (perdi - imagina - oito quilos), manchas no corpo - e sem um tostão. Não vou te contar todos os detalhes dolorosos dos 2 últimos meses - mas meu santo é forte e mandou aquele nosso velho anjo da guarda chamado Graça Medeiros, vinda de NY pque o irmão de S.(...) está terminal (...) Depois de pegar o teste positivo, fiquei dois dias ótimo, maduro & sorridente. Ligando pra família e amigos, no 3o. dia enlouqueci. Tive o que chamam muito finamente de ¨um quadro de dissociação mental¨.
Pronto-Socorro na bicha: acordei nu amarrado pelos pulsos numa maca de metal...Frances Farmer, Zelda Fitzgerald, Torquato Neto: por aí.¨
(nota do editor: Caio foi amparado nesse momento por Gil Veloso e pela amiga Déa Martins. Déa seria também a pessoa que estaria com ele em dezembro de 1995, no retiro solitário na praia do Rosa, que constituiu, por assim dizer, o último ato em vida de Caio F. Muito debilitado pelo colapso imunológico, tendo passado no ano de 1995 por cirurgias e tratamentos contra cânceres sem perder a lucidez nem interromper o trabalho de escritor, Caio fez questão nessa quinzena de praia de mergulhar no mar, mesmo entre febres.Voltou então para Porto Alegre, onde pouco depois do Ano Novo contraiu a pneumonia que o levaria ao delírio e ao falecimento em 25 de fevereiro de 1996.)¨
Tiraram líquido da minha espinha, esquadrinharam meu cérebro com computador, furaram veias, enfiaram canos (tenho 1 no peito, já estou íntimo do tripé metálico que chamo de ¨Callas¨, em homenagem a Tom Hanks),etc,etc. Não tenho nada, só um HIV onipresente e uma erupção na pele (citomegalovírus) que cede pouco a pouco...Maria Lídia, nunca pensei ou sempre pensei : por contas e histórico infeccioso feito com o médico, tenho isso há dez anos.
E pasme. Estou bem.
Nunca tive medo da morte e, ale´m disso, acho que Deus está me dando a oportunidade de determinar prioridades. E eu só quero escrever. Tenho uns quatro/cinco livros a parir ainda, chê. Surto criativo tipo Derek Jarman, Cazuza, Hervé Guibert, Cyrill Collard.
E estou cercado de anjos. Minha irmã Cláudia - sempre a mais brava e bela - veio de POA. Ficou dois dias. Todos da família lidam bem com a coisa. Nair, a espantosa, não ficou nada chocada: já sabia...só ela sabia.Mas nunca duvide de mães. E amigos ótimos, visita todas as tardes, muito amor, maçãs e chocolates.Ganhando alta aqui, mais uma semana, vou para POA. Quero ganhar forças para enfrentar Frankfurt e dois congressos na França em out/novembro. ¨
Não sinto nenhum rancor, nenhuma mágoa. Chorei algumas vezes porque a vida me dá pena, e é tão bonita.
Passeio pelos corredores da enfermaria e vejo cenas. Figuras estarrecedoras. Saio dessa mais humano e infinitamente melhor, mais paciente - me sinto privilegiado por poder vivenciar minha própria morte com lucidez e fé.
Te amo muito (...)Nada disso é segredo de Estado,se alguém quiser saber, diga. Quero ajudar a tirar o véu de hipocrisia que encobre este vírus assassino.
Mas creia,estou equilibrado, sereno , e às vezes até feliz.
Muito amor,
seuCaio F.
(finalmente um escritor positivo!)
PS - Ouço muito Maria Callas, sobretudo a ária final da Butterfly, que Augusto me deu.Difícil ouvir outra coisa.
PS - Não se preocupe. Não fique triste. Tudo me parece lógico: Que outra morte eu poderia ter? È a minha cara! E futilidade sempre foi matéria de salvação: convenhamos que é muito moderno, muito in...Sò choro às vezes porque a vida me parece bela (O sol. As cores. As coisas). Mas é de emoção, não de dor.Tà tudo certo.
Love
Love
Love
Its
All
We
Need
Always
*
*
A Guilherme de Almeida Prado
Paris, 12 de abril de 1994
Paris, 12 de abril de 1994
Querido Guila,
escrevo ¨querido¨ porque - você sabe? - realmente gosto muito de você. Não esqueça disso.Voltei sábado de Saint-Nazaire, de onde te enviei um cartão (pedindo o endereço/relefone de Gianni em Lisboa).Ao chegar encontrei o teu cartão.
Eternamente Bambi, abri todo saltitante - foi o primeiro que recebi do Brasil, e desde que saí, há mais de mês, não tive notícias daí. Então levei um choque. Deus, quanta hostilidade! Fechei o cartão e só reabri hoje, depois de muito pensar se devia uma resposta ou não. Porque realmente-gosto-muito-de-você, acho que sim.
Ô Guila, calma lá! acho um pouco ridículo um bate-boca transoceânico, mas não consigo ficar com essas coisas atravessadas. Então:
1o. - fui injusto - um pouco - ou excessivo com você. Ma non troppo.Como te disse, voltei a SP ano passado, após dez meses de ausência, sem trabalho, sem casa sem nada. Discretamente, enviei sinais de socorro aos amigos. Ninguém ajudou. Me virei sozinho. Isso me endureceu um pouco mais. Não foi só você, não. Foram também pessoas até mais íntimas, como Jacqueline. Eternamente Bambi, me virei sozinho com enormes dificuldades. Não me lamuriei. Mas preciso que as pessoas saibqam que isso doeu - exatamente porque algumas destas pessoas, como você ou Jacqueline, importam para mim.
2o. - Cheguei em Paris preocupado com a minha violência, o meu ¨excesso¨. Metade pelo menos provocada pelo álcool e pela excitação da viagem.Pedi desculpas, com doçura,
3o. Você me responde duramente. Escuta:
4o. - ¨Ar blasé¨ - não sei o que significa isso. Certa vez num grupo de psicanálise (fiz 14 anos, ganhei duas altas: acho que lido mais ou menos bem com meus demônios) uma garota disse que eu era ¨altivo¨. Achei chique. Talvez você queira dizer ¨ar aristocrático¨?
Bivar, que tem um olhar doce sobre omundo, certa vez disse que eu parecia um príncipe - normando. Não sei por que ¨normando¨, mas também achei bonito. Sou terrivelmente tímido e, na verdade, acho que tenho mais é um ar de cachorro surrado, dquele que levou muita porrada, passou fome, dormiu ao relento.
5o. - Eu ¨não resisto a uma baixaria bem brega¨! Resisto sim. Tenho um passado hippie que me deixou muitas coisas boas. Estou sempre preocupado com a ética, com a beleza, com a dignidade. Sou educadíssimo, e fui criado de maneira muito católica, com toda aquela culpa de ¨maus¨pensamentos, ¨más¨ ações, e uma terrível nostalgia da ¨bondade¨ (como a ¨Alice¨do Woody Allen).
Gosto de pessoas doces, gosto de situações claras - e por tudo isso, ando cada vez mais só. È como me sinto melhor.
6o. - A propósito do parágrafo acima, hoje li um Wolinski chamado Les français me font rire que como esta frase: ¨Si tout le monde était comme moi, je n aurais pas besoin de detester les autres!¨ (tradução:¨Se todos fossem como eu, eu não precisaria detestar os outros¨.
7o. - Amigos não ¨são para essas coisas¨, não. Isso é um clicê detestável, significando quase sempre que amigo é saco de pancadas, é uma espécie de privada onde o outro pode jogar dejetos, detritos imundos e dar a descarga. Amigos são para dividir o bom e o mal, mas também para deixarem as coisas sempre limpas entre eles - amigos devem ser solidários. Um dos meus maiores amigos, (...), que vive em Paris há quase 30 anos e é soropositivo há 9 (mas graças a Deus saudabilíssimo), tem sempre a preocupação de seu útil aos amigos. Quase não fala, não envia flores, não escreve cartas - mas quando procurado está sempre ali, firme e cheio de informações práticas para ajudar a gente. Amigos são também paa escrever cartas enormes e um tanto idiotas como esta, cheia de carências, porque gostam de outros amigos e não querem que as relações de amizade tomem nesse poço nojento de brutalidade e vulgaridade que viraram os anos 90.
È por isso que te escrevo, quase meio-dia, um sol raro lá fora. Guila, não me mande coisas assim raivosas. Eu não tenho anticorpos para esse tipo de coisa. Até hoje, um dos meus truques para sobreviver, mesmo não sendo mulher e nem sequer tendo cabelos, foi fazer o papel de ¨loura burra¨. Deixei passar muita agressividade, muita humilhação - e não me refiro a você, mas estou farto. Fui vivendo minha vida de maneira tão solitária, conquistando as minha coisas tão no braço, tão sempre sem nada, que aprendi a ter uma enorme admiração por mim mesmo. Vou chegando muito perto dos meus 50 anos sem dever absolutamente nada a ninguém.
Então, nos últimos tempos - deve ser a meia-idade - comecei a ter uma sensação, digamos, de ¨direitos adquiridos¨. Não aguento mais desaforo, e vou ficar pior, vou ficar, se Deus quiser, como Odete Lara, Greta Garbo, Fauzi Arap, Helen Lane - americana budista de 84 anos que conheci semana passada, e vive só numa cabana no Perigord, cercada apenas de livros e gatos. Ando exausto de seres humanos.
Guilherme, mon cher, precisamos - eu e você e todo mundo - tomar muito cuidado com esses tempos. São tempos de horror. Tudo fica ainda mais grave neste país de là-bas, como é o Brasil, e mais ainda numa cidade como São Paulo - onde a crise econômica, a corrupção, a violência, a falta de futuro, a miséria material foi gerando sem que as pessoas percebessem também uma miséria ainda mais terrível e mais patética. São Paulo virou um grande salve-se-quem-puder: ninguém ajuda ninguém. E se as pessoas como nós - os ¨especias¨, os cineastas, os escritores, os músicos, os poetas: a gente que tenta criar beleza e dignidade - também começarem a agir dessa maneira, então mais vale a pena a casinha pobre de Dulce Veiga no meio do mato, as panelas arrebentadas em que Odete Lara uma vez cozinhou arroz integral para mim. Compreende?
Devo estar chatíssimo, mais ¨blasé¨ do que nunca, com todo esse texto parecendo discurso do Partido Verde...Et voilá: sou também um pouco tolo, um pouco naive, um pouco pêra - e eternamente Bambi. Quando a barra pesa, compro flores e ouço Mozart. Não creio que isso seja gostar de uma ¨baixaria bem brega¨. Além disso, essa linguagem rasteira absolutamente não combina com você - um von Almeida Prado!
(...)
Sinto que o Brasil tenha ficado ¨ainda mais medonho¨ sem mim. Em compensação, a França parece ter ficado ainda mais encantadora comigo. Os livros caminham lindamente, críticas ótimas nos jornais e revistas mais importantes, rádio, TV. Ontem - foi hilário - dei autógrafo na rua , em Saint-Germain des Prés, para um garoto - estranhamente chamado Damour - que viu um dos programas de TV, comprou os três livros, deu vários de presente. Cheguei na editora rindo: meu Deus, a Laika de São Paulo, a negra sem ter onde morar, vivendo com 500 dólares por mês, lavando roupa num balde sob o chuveiro, fazendo a feira toda a sexta - dando autógrafo em Saint-Germain!
Por tudo isso, tenho me divertido muito, muito. Ontem, a poderosa de uma editora que recusou Dulce Veiga, após várias najices, me convidou para jantar no ¨Le Temp Perdu¨, o melhor restaurante do Quartie Latin. Eu disse educadamente ¨não¨, muitos compromissos, muitas viagens. Se gostasse de uma ¨baixaria bem brega¨, aprontava uma grosseria em plena mesa de jantar. Mas não sou hipócrita, Guila. Não sei fazer ¨jogo social¨. Até saberia, mas não me interessa, tenho preguiça. Como Dulce V.,eu sempre quis só ¨outra coisa¨, e vou chegando a um ponto em que tenho pensado se essa ¨coisa¨ não será a solidão mais completa -e se não ela, essa solidão idealizada, porrada de gatos, rosas, Mozart e livros, será quem sabe a morte. Há que ter paciência para esperar por ela, que é a única certeza entre todas as nossas ilusões tolas.
A propos: você já viu ¨Short Cuts¨, do Altman? Não sei se chegou aí. Fiquei PARALISADO. Não é um bom filme: é genial, é uma radiografia, um corte tão profundo e impiedoso na sociedade americana e na alma humana que vale por ter vivido uns 20 anos. Ensina muito sobre a nossa loucura, a nossa vulgaridade, a nossa crueldade.
São de coisas assim que quero falar com você, meu amigo - cinema,literatura,música,vida. Que enorme desgaste trocar najices - gastar um cartão lindo daqueles (vou ter que jogar fora, sorry, é muito ofensivo), mais selo, sem falar na produção sempre exaustiva de enfrentar os correios paulistanos - de hemisférios opostos.
Ah, Guilherme, não me envie mais coisas assim. Não escreva nada, não nos procuramos mais: um dia nos cruzamos por acaso, de repente, e então vemos o que aconteceu a nossos rancores e reagimos de acordo com isso. Mas se você quiser me contar das suas funduras, e não apenas defender-se - e os amigos são,sim, para trocar abismos - então escreva 10, 100 páginas, e eu responderei com calor, com carinho, com toda a amizade que realmente sinto por você.
(...)
Je t embrasse
Caio F.
*
*
São Paulo, 12 de agosto de 1987.
Querida mãe, querido pai,
Não sei mais conviver com as pessoas. Tenho medo de uma casa cheia de pais e mães e irmãos e sobrinhos e cunhados e cunhadas. Tenho vivido tão só durante tantos – quase 40 – anos. Devo estar acostumado.
Dormir 24 horas foi a maneira mais delicada que encontrei de não perturbar o equilíbrio de vocês – que é muito delicado. E também de não perturbar o meu próprio equilíbrio – que é tão ou mais delicado.
Estou me transformando aos poucos num ser humano meio viciado em solidão. E que só sabe escrever. Não sei mais falar, abraçar, dar beijos, dizer coisas aparentemente simples como “eu gosto de você”. Gosto de mim. Acho que é o destino dos escritores. E tenho pensado que, mais do que qualquer outra coisa, sou um escritor. Uma pessoa que escreve sobre a vida – como quem olha de uma janela – mas não consegue vivê-la.
Amo vocês como quem escreve para uma ficção: sem conseguir dizer nem mostrar isso. O que sobra é o áspero do gesto, a secura da palavra. Por trás disso, há muito amor. Amor louco – todas as pessoas são loucas, inclusive nós; amor encabulado – nós, da fronteira com a Argentina, somos especialmente encabulados. Mas amor de verdade. Perdoem o silêncio, o sono, a rispidez, a solidão. Está ficando tarde, e eu tenho medo de ter desaprendido o jeito. É muito difícil ficar adulto.
Amo vocês, seu filho,
Caio.
*
*
A Luciano Alabarse
SP 31.08.88
SP 31.08.88
(trecho)...
"Cazuza. Sa¨s que ele me dedicou ¨Só as mães são felizes¨ no show aqui de SP? Fiquei num exibimento insuportável: foi o maior elogio de toda mi perra vida. Aí fui dar uns amassinhos nele, no final.Luciano, Cazuzinha está com no máximo 50 kilos.
Lindo, vital, sereno. Mas você olha a cara dele e vê a cara da morte. O que pira a gente é que, você sabe, a morte está viva. Foi lindo. Ritual de vida e morte, naquele menino definhando em cima de um palco. Não é mórbido não.Dá vontade de viver e rouba o medo. Cazuza te joga na cara os anos 80, plenos de veneno. Não temos tempo de temer nada, e a Amazônia continua em chamas.¨
*
*
Carta à VERA E HENRIQUE ANTOUN
Porto Alegre, 23 de dezembro de 1971
Porto Alegre, 23 de dezembro de 1971
(...)
Eliminei a palavra oral, e quase não falo, um pouco porque estoucercado de habitantes de outro planeta ou, no mínimo, outra concepção devida, outra escala de valores, outros processos.
De repente eu me vi adulto e de mãos vazias, sem sequer umeletrodoméstico para satisfazer essas pessoas que nos exigem realizações otempo todo.
(...)
Um comentário:
Coisa linda esse seu blog, seguindo aqui já, admiro muito o Caio e adorei o blog!
Bj
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